Atualmente, no Brasil, experimentamos um movimento que, se não inédito, é pelo menos inusitado. Assistimos a expansão do consumo e dos mercados, provocando um efeito agregado positivo para o conjunto de empresas. Varejo, telecomunicações, construção civil e entretenimento são apenas alguns exemplos dos setores que estão em franca expansão país afora.
Esta nova era de rápido crescimento provocada pela explosão do consumo, notadamente das classes historicamente menos favorecidas, projeta um novo cenário social de mercado e demanda uma nova atitude dos profissionais.
Ao longo da primeira década dos anos 2000, as micro-revoluções ligadas à tecnologia, educação, comportamento, moda, artes etc. estabeleceram parâmetros inéditos para a compreensão de fenômenos mercadológicos que foram nada mais do que frutos de todas estas modificações socioculturais.
O fato é que estamos em pleno movimento de incorporação de um novo indivíduo que consome novos bens de forma diferente. Esse é o nosso panorama. Para exemplificar esse movimento, temos que o ganho dos 10% mais pobres aumentou 7,6% ao ano, enquanto o rendimento recebido pelos que estão no extremo oposto, os 10% mais ricos, ficou 1,5% maior de 2003 a 2009.
Hoje estamos em um ambiente menos hostil e positivo, mas é um novo ambiente de mercado. É uma realidade na qual grande parte dos altos executivos e empresas ainda não vivenciaram. Qual é a estratégia das organizações e das escolas responsáveis pela formação dos novos profissionais? Esses questionamentos são desdobramentos da grande pergunta que deveríamos fazer. Qual é a estratégia do Brasil para atuar neste novo cenário?
Nesta perspectiva, as instituições, de maneira geral, desde as governamentais às empresariais, já têm hoje um compreensão muito apurada das nuanças que compõem este novo cenário multicultural, e, naturalmente, perceberam que, para sobreviverem, será necessário contar com um novo perfil de profissionais de marketing: o profissional 3D.
O profissional 3D caracteriza-se por uma formação que reúne as seguintes características: disciplina, diversidade e dinamismo. O perfil que se exige do novo profissional que atuará no entendimento e atendimento deste novo mercado de consumo é cada vez mais multidisciplinar. Esta demanda é fruto do processo de decomposição das fronteiras das profissões. Cada vez mais se valorizam habilidades e competências e não profissões específicas. A formação deve ser encarada, cada vez mais, como um processo continuado, dinâmico.
Hoje, o acesso e a disputa por mercados se acirraram e cada vez mais será necessário prepararmos profissionais com o perfil acostumado a mudanças socioculturais extremamente radicais a cada cinco anos.
Essa é a própria origem do marketing, que sempre se caracterizou pela mudança, ao agregar e sintetizar corpus de outras disciplinas que lhe permitissem aprimorar o desempenho. Sempre perseguindo seu objetivo de atrair e manter os clientes.
A diferença para o momento que vivemos, no entanto, está na inédita velocidade com que padrões de consumo têm se alterado ao longo dos últimos dez anos, somando aos “abruptos” lançamentos de tecnologias revolucionárias que têm reestruturado a cognição de consumidores em todo planeta. O acesso a plataformas digitais móveis como iPhones e tablets, rompe completamente com a estrutura que o “ato de consumir” possuiu ao longo do século XX.
Mesmo que se exija hoje do profissional uma formação multidisciplinar em um escopo de três dimensões (3D), dotada de instrumentos que permitam acompanhar as mudanças permanentes do comportamento de consumidores em todo o mundo – além de sensibilidade política, econômica e cultural que permita maior apuro para o entendimento das tensões local x global – no frigir dos ovos será preciso que este profissional não se esqueça das lições do professor Levitt, proferidas nos idos de 1960. Em seu clássico artigo “Miopia em Marketing”, o autor já observara que a gestão das empresas deveria estar focada na dinâmica dos consumidores e não somente em sua linha de produtos.
Porque em um mundo tão veloz e tão abarrotado de códigos, informações e conteúdos, uma simples miopia pode evoluir e se atrofiar em questão de horas. É preciso “olhar para fora”.
Matéria publicada na revista Meio & Mensagem - 28 de março de 2011